
RETRATO DE MÃE Há uma mulher que tem algo de Deus pela imensidade de seu amor e muito de anjo pela incansável solicitude de seus cuidados; uma mulher que, sendo jovem, possui a reflexão de uma anciã e, na velhice, trabalha com vigor da juvetude; uma mulher que, quando ignorante, descobre os segredos da vida com mais acertos que os sábios e, quando instruída, se faz simplicidade das crianças; uma mulher que, sendo pobre, se satisfaz com a felicidade daqueles que ama e, daria com prazer suas riquezas para não ter na alma a ferida da ingratidão; uma mulher que, sendo forte, se estremece ante o gemido de uma criança e, sendo débil, adquire, às vezes, a bravura do leão; uma mulher que, enqunto vive, não sabemos estimar, porque ao seu lado todas as dores se esquecem, mas que, depois de morta, daríamos tudo o que somos e tudo o que temos para pode vê-la de novo, para receber dela umabraço, para escutar de seus lábios uma só palavra. Não exijais de mim o nome desta mulher se não quiserdes que umedeça com lágrimas o nosso álbum, pois eu a vi passar no caminho. Quando vossos filhos crescerem, lede-lhes esta página, e eles, cobrindo de beijos vossa fronte, dirvos-ão que um humilde viajor, como paga da magnífica hospedagem recebida, deixou aqui, para vós e para eles - UM RETRATO DE MÃE. Dom Ramon Angel Jara Bispo de La Serena - Chile
Escrito por mariaelisagoes às 10h20
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Ser mãe
Hesitei por muito tempo, perguntar para Dona Maria o que é ser mãe. Alguém achou que eu seria capaz de responder e me encomendou um texto para o dia das mães que se aproximava. Nós estávamos sentados na varanda de sua casa, em nossa recorrente conversa silenciosa, ela na altura dos 95 anos fazendo seu crochê e eu nos meus quase quarenta lendo jornal do sul ao lado de uma espumante taça de cerveja gelada. O que é ser mãe? Perguntei finalmente. A resposta veio lacônica: não sei, eu nunca tive filho. Mas você criou tanta gente nessa vida, disse a ela, como querendo atiçar o fogo. Então você sabe a resposta, ela rebateu, como se nós estivéssemos numa mesa de ping-pong. Mas ela continuou. Realmente, muita gente passou pela minha mão, e isso desde muito cedo. Quando meu pai ficou viúvo, ele chegou para mim e disse que como irmã mais velha, agora eu teria de cuidar dos meus irmãos e da minha irmã. Mais velha! Eu era apenas uma criança de seis anos de idade. Quando casei, levei todos eles para morar conosco, três moleques e minha irmã mais nova. Os três garotos cresceram e começaram a dar muito trabalho e preocupação. Eu e meu Velho decidimos despachar as pestes: um para polícia, outro pro exército e o último foi ser grumete. Meu Velho era médico na cidade, e me confessou antes de casar que não poderia me dar um filho. Eu quero viver com você, foi minha resposta. E foi naquela tarde, que nós selamos o compromisso de cuidar um do outro pelo resto de nossas vidas. E assim foi durante os 60 anos em que estivemos juntos. Maria já estava com os olhos marejados, era sempre assim quando ela se lembrava do seu Velho. A recomendação das filhas era tentar mudar de assunto, falar das flores do jardim, por exemplo. Mas Maria continuou a falar sem me dar tempo de reagir. Uma manhã, Meu Velho voltou de um atendimento de urgência na madrugada com um bebe enrolado numa toalha. A mãe tinha morrido no parto e não havia quem pudesse cuidar da criança. Eu cuidei, mas era uma criatura frágil e, por maior que fossem nossos esforços, ele não ficou conosco por muito tempo, uma paralisia o levou. Naquele tempo a vida era muito frágil, disse. Como hoje em dia, pensei em retrucar. Silenciei. Depois veio uma sobrinha de meu marido morar com a gente. Ela e minha irmã se tornaram eternas companheiras. Eram amigas inseparáveis. Ela chegou adolescente e só saiu para casar com um jovem médico da equipe do Meu Velho. Depois viemos morar na capital e fiz questão de construir esta casa enorme, muitos quartos, sala, cozinha, despensa, varanda e jardim, para receber quem chegasse. Parece que eu estava adivinhando o futuro. Um dia, recebi uma carta de meu irmão, o grumete, em que contava que havia ficado viúvo e estava com dificuldades de criar os dez filhos gerados pelo casal. Respondi de pronto, traga os menores para cá. E assim foram chegando e no fim, eu já nas beiradas dos 60 anos, recebi nesta casa, cinco filhos do meu irmão. Já vieram prontos, entre 5 e 15 anos, três mulheres e dois rapazes. Os amigos e a parentada reclamaram, diziam que nós já estávamos velhos e que aquilo era loucura. Fiz ouvidos de mercador, se não gostassem, que fossem ter em outra freguesia, pois meus sobrinhos agora eram meus filhos. Não queria provar nada a ninguém, apenas segui o meu coração. Com certeza valeu a pena Maria, eu disse. Sem nenhuma dúvida meu filho, faria tudo outra vez, pode acreditar. Acredito. Sai de lá correndo atrás de papel e lápis para escrever o texto para o jornal. Acolher e cuidar dos presentes que a vida nos reserva, esse era o que minha mãe, Maria, me ensinou naquela tarde. Escrevi o texto que foi publicado, até recebi parabéns. Mas só eu sei que não pude passar em palavras toda a emoção que senti. Ser mãe é afinal um atributo essencialmente feminino, coisa genética mesmo, e com a natureza não se deve discutir. A nós, homens, só nos resta o papel de sermos pai, que espero tentar cumprir do modo como Maria cumpriu seu papel de mãe.
Julio Cesar Góes
Escrito por mariaelisagoes às 08h50
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