Maria Elisa Companheira do Tempo


Gêmeos Singulares

 

Alfredo e Elisa se casaram e naturalmente queriam filhos. Naquela época não havia planejamento familiar. Ou melhor, o plano era: nasceu a gente cria, se vingar. Assim o limite era a própria natureza das coisas. Para Alfredo,  homem tinha de provar sua macheza. O primeiro rebento tinha que ser homem e deveria nascer em nove meses, a contar da noite de núpcias.

O tempo passou: um mês, dois meses, três meses e nada de prenhes. Alfredo já estava ficando preocupado. Isso não podia estar acontecendo com ele. Logo ele, que comparecia todos os dias, sem falta. Dona Elisa já acabrunhada com a demora, confidenciou suas preocupações com uma amiga; seu casamento estava com risco a desabar. A amiga indicou uma parteira benzedeira que era famosa de resolver casos de gravidez encruada, talvez ela desse uma solução. Dona Elisa desesperada, foi se consultar com a parteira. Esta ouviu a história, fez umas perguntas, que deixaram D. Elisa envergonhada e no fim se levantou, foi até uma prateleira e voltou com um frasco na mão. Toda noite, quando seu esposo chegar do trabalho, bote uma colher dessa porção na gemada que você mesma terá que preparar para ele. Dona Elisa não perguntou nada. Recebeu o frasco e foi embora, preparar a gemada.

O resultado veio nove meses depois num dia primeiro de abril. Dona Elisa com uma barriga imensa, a parteira de sobre aviso e Seu Alfredo com um largo sorriso no rosto, já tinha separado o Porto e o charuto, para chegada do primogênito. Já era noite quando os trabalhos começaram e meia hora antes de terminar dia D. Elisa já estava com seu rebento nos braços, sob o olhar cúmplice da velha parteira. Toda a casa era só alegria, José Alfredo finalmente tinha chegado e Seu Alfredo já dava as primeiras baforadas no charuto cubano que tinha comprado especialmente para a ocasião, quando o relógio da sala bateu 12 vezes. Foi nesse momento que se ouviu a gritaria lá do quarto. Alfredo quis saber o que estava acontecendo. Dona Elisa entrou no trabalho de parto novamente. - vem outra criança aí Seu Alfredo, disse a parteira. E a azáfama recomeçou com o entrançado do mulherio e sua vozeria. Assim nasceu uma menina que veio se chamar Maria Elisa.

José Alfredo e Maria Elisa se tornaram gêmeos singulares. A vida toda fizeram questão de aniversariar, cada um no seu dia. Maria Elisa afirma sempre com uma ponta de orgulho que era ela a primogênita da família, e não o seu irmão. Uma mulher e não um varão, como queria meu pai. Dizia ainda que se recusou a nascer no dia da mentira e, por isso, expulsou o irmão franzino do conforto do útero da mãe, a pontapés. E ficou por lá até ouvir as badaladas do relógio, anunciando o dia 2 de abril. A mãe, Dona Elisa, dizia que ela mamava como uma desesperada e quase não deixava leite para o pobre do Alfredinho.

Maria Elisa conta sempre que ela era muito mais esperta do que o boboca chorão do Zé Alfredo. E que só se arrepende de uma coisa: ter trocado os ossos com o irmão na hora da concepção. Como assim? Perguntei. É que eu fiquei com o quadril dele, e  nunca pude ter parto normal. Os ossos não descolavam e para ter filho só fazendo cesárea. Na época, não era uma operação simples como hoje em dia. Tudo era mais difícil: anestesia geral, recuperação custosa e só podia engravidar depois de quatro anos. E tudo isso porque eu obriguei o Zé Alfredo a trocar os ossos comigo. Ele sim podia ter tido quantos filhos Deus permitisse.

Julio Cesar Góes



Escrito por mariaelisagoes às 10h01
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Mais de 80 voltas em torno do sol

(Orelha do livro)

Foi num ônibus para Jacarecanga, há umas setenta voltas do sol atrás, voltando da Escola Normal num dia de sol em Fortaleza como tantos outros.

Ela era uma garota de olhos brilhantes que nos sorri um sorriso feliz na capa deste livro, a rainha da inteligência, muito esperta, queria trocar o dinheiro que as irmãs Lulu e Zezé tinham lhe dado para pagar o cinema, que foi pago por um adimirador, e ela queria economizar o valor da entrada.

Foi neste instante, na troca de olhares, ou depois, na conversa já na calçada da Tristão Gonçalves em que o aspirante, fardado de verde-oliva, o posteriormente revelado primo da amiga, certamente ficou encantado com a normalista. Ele que tinha acabado de receber o soldo, e precavido, como sempre continuou a ser, afereceu-se para trocar o dinheiro. Era o ingresso do amor. Dona Elisa a mãe zelosa das três filhas, não gostou nada daquele rapaz brincalhão, que com os olhos parecia comer sua filha e soltava beijos no ar na hora do blecute, enquanto ela apressada ia buscar a vela. A verdade é que o rapaz, o Aspirina como foi apelidado por pretendentes invejosos, tinha sido encantado, pelo resto da vida, por aquela garota cheia de vida que por ele se apaixonou para sempre.

Esta história de amor que eu ouví tantas vezes, é a história do milagre da concepção da minha vida.

Sem este encontro eu não estaria aquí escrevendo esta orelha para indicar o livro da vida desta garota alegre, Maria Elisa, que tenho o prazer de encontrar nesta vida, como Mãe. Este livro é o livro do encontro da Maria Elisa com a vida. A vida que se revela no encontro com os pais, irmãos, amigos, filhos, sogros, sobrinhos.

No encontro com as cidades, com a alegria e a dor. Com a Bia, um anjo da guarda. Com seu Tontonho, o amor. E o maravilhoso encontro com Deus, que talvez não seja outra coisa senão o encontro consigo mesma.

Julio César.



Escrito por mariaelisagoes às 09h56
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